Campanha Primavera para a Vida é lançada com roda de diálogo virtual, reflexões e poesia

29 de setembro de 2020

Primavera para a vida

“É Primavera para a vida há 20 anos
Sabemos que esse ano não é igual
Bem diferente, é fisicamente longe
Mas mesmo assim primaveramos
Ainda que nossa roda seja virtual  
Quanta história, quantos anos
Quanta luta, reflexão
Leitura da vida
Não tem feijoada dessa vez
Mas a partilha é garantida
As fomes são tantas
Crescem a cada dia”

 

A poesia de autoria de Joice Santana (Cáritas Brasileira Regional Nordeste 3), recitado durante a live realizada nesta quarta (30/09), tece, com doçura e tom crítico, as riquezas e sabedorias compartilhadas no lançamento da 20ª edição da Campanha Primavera para a Vida. O início da nova estação foi coroado com uma roda de diálogo virtual, que abordou o tema As fomes do povo e as partilhas do reino de Deus em tempos de pandemia – ‘Porque tive fome, e me destes de comer’ (Mt 25.35a)”. A live integra a série “Diálogos Ecumênicos e Inter-religiosos”, uma realização da Coordenadoria Ecumênica de Serviço.

 

“Assim como as sementes brotam nessa primavera
Cresce também o amor
A esperança
A teimosia
A profecia

Primavera para vida

“Primavera de gente animada, gente que não se cansa
Que diverge, que dialoga
Refletida na linda obra de Anderson Augusto
Que ecoa a vida
Que não é sufocada pela morte
É gesto concreto
Iluminadas pelos versos do saudoso Dom Pedro Casadáliga
Primavera esse ano é tempo de saudade” 

 

“E quantas são as fomes?
Numa roda feminina com mulheres fortes
Mulheres fortes
Que ajudam a primaverear a vida
Que indignam-se
Mobilizam
E atuam onde os desafios se ampliam
É a luta pela terra, é a luta pela vida,
Resistência, justiça
É a luta pela equidade social
Para toda vida, toda gente, todas as trabalhadoras e trabalhadores do campo
Pelo reconhecimento dos territórios”

 

Como convidadas para a roda de diálogo, destacam-se as participações de Mãe Nilce de Iansã – Iyá Egbé do Ilê Omolù e Oxum (coordenadora da Rede Nacional de Religiões Afro Brasileiras e Saúde e conselheira do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher – RJ; Juliana Santos (educadora popular e militante do Movimento Sem Teto da Bahia); Gilvânia Ferreira da Silva (pedagoga, educadora popular, militante do Movimento Sem Terra /Maranhão); e Nancy Cardoso (pastora metodista, teóloga feminista, filósofa e assessora de formação da Comissão Pastoral da Terra).

A roda de diálogo foi mediada por Sônia Mota, diretora executiva da CESE, e contou com saudação inicial do presidente da organização, Padre Marcus Barbosa, o qual trouxe a reflexão: “estamos vivendo o tempo da criação, a criação com suas fases, gemidos.  A vida é mais forte que a morte, já choramos muito, muitos se perderam no caminho”. Barbosa acalanta e fortalece os corações da audiência, conduzindo a memória à música de Beto Guedes, “Sol de Primavera”. “Vamos lembrar da esperança que brota da fé. A esperança ativa não só de reza, mas do gesto concreto de amor e para a defesa de direitos”.

 

“Primavera para a vida
Doações, cafés solidários, partilhas
Para todos que estão vulneráveis
Em tempos de desalojamentos que tem uma estrutura que desmata
A agroecologia é farol de um novo modo de vida
Na força das mulheres na zona rural e nas periferias
100 milhões de árvores estão sendo semeadas
Sementes crioulas compartilhadas
Vida digna no campo e na cidade
Com educação e vida em abundância para todas
Partilha do reino de amor e solidariedade”

 

Representando o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) do Maranhão, a educadora popular Gilvânia Ferreira da Silva denuncia uma sequência de violações a que trabalhadores e trabalhadoras rurais são surpreendidos/as diariamente, agudizadas com a pandemia: despejos; ameaças e mortes de lideranças; dificuldade de acesso a crédito por trabalhadores/as rurais; e acesso precário à internet pelas crianças dos acampamentos.

Ainda assim, confia em um futuro de bem viver, a partir das práticas do MST voltadas à segurança e soberania alimentar no campo e na cidade, como a distribuição de sementes crioulas e realização de cafés da manhã solidários para populações em situação de rua durante esse período da pandemia.

 

“Primavera para a vida

Soberania alimentar   e vidas ameaçadas
Das comunidades tradicionais
Destruição das comunidades pesqueiras e manguezais
O povo quer viver
Quer bem viver
É a fome que clama
A fome de justiça, território, morar bem
A fome de justiça
De liberdade
Uma luta constante e histórica
Primavera para vida
Nos chama a unirmos os nossos gritos”

(Marizélia Lopes, do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais, em depoimento  gravado para a live)

 

Nossa fome é de respeito à ancestralidade”

 

“Primavera para vida

Sororidade, respeito a vida
Luta pela vida
Pela vida digna
Primavera para a vida
Os povos indígenas tem sofrido violações ao longo do tempo
E tem sido acumuladas
Os povos indigenas estão na UTI
Sim na UTI
Vulneráveis e com o risco ainda maior de morrer
É a fome pela vida, pelo território
Demarcação já!
E todas nós somos convidadas e convidados também
A essa luta se juntar
No Brasil e no mundo essa luta também precisam ecoar”

 

(Advogada Samara Pataxó, assessora jurídica da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil)

 

“Primavera para a Vida

A formação
A educação
A transformação
São as bases para mudar a sociedade
Direito  a  cidadania
Direito a moradia
Parece a invisível mas não é
É a fome de bem morar, de bem viver
Resistência, enfrentamento
Dignidade
Indignação
Fome de esperança
Alimentada pelas mãos dadas
É preciso dar respostas
E não ser indiferente
São Campanhas
Disponibilização de água
O povo do MSTB se une e saciam
Desde o lavar as mãos,  aos alimentos
Em parcerias
O apoio chega
E a fome sacia
E sabe aquele livro que você leu, mas até hoje não mais lia?
Ah, pegue esse livro, doe e contribua para fazer crescer essa partilha
Alimentar o amor
Os sonhos
De forma coletiva
Esperançar e cuidar  desde as crianças
Despejo zero!”

 

A Campanha #DespejoZero foi um dos motes da fala de Juliana Santos do Movimento Sem Teto da Bahia. A iniciativa, de âmbito nacional, surgiu a partir da mobilização e articulação de moradores atingidos e ameaçados de despejos, movimentos sociais, entidades, coletivos e laboratórios de pesquisa de todo o país como reação às remoções e despejos promovidos por governos e proprietários privados (sejam empresas ou indivíduos), que vêm ocorrendo tanto no campo quanto na cidade, do norte ao sul do Brasil durante a pandemia — quando justamente ficar em casa é considerado como uma das medidas mais seguras e eficazes de proteção e prevenção ao contágio do vírus. O objetivo da campanha é parar os despejos individuais e coletivos durante a pandemia.

“Nós somos essa resistência, na luta por moradia. Esse direito é vital ao ser humano, permeia todos os espaços de vivência. Nossa fome é de justiça, fome de teto”, reforça Juliana.

Em suas reflexões, a educadora popular do MSTB conta como “as partilhas do reino de Deus” se expressam no movimento: da campanha de livros em curso para estimular a educação de crianças, jovens e adultos a um dado animador: o número de zero contaminações por Covid-19 nas ocupações, fruto da consistente campanha permanente realizada.

“A pandemia vem amarrar todas as crises que já existiam. É tudo novo, mas é tudo muito antigo”, abre sua fala a teóloga feminista Nancy Cardoso, sintetizando em duas frases o aprofundamento em curso das disparidades sociais e econômicas no Brasil.

Referindo-se ao campo religioso, Nancy condena o lugar em que Deus é posicionado hoje em dia: na mineração, no agronegócio, na indústria de alimentos. “Devemos fazer essa crítica: recolocar as igrejas a partir da base, pela esquerda, recuperar o cristianismo dos pobres, que se junta na mesa da igualdade. Construir nossas redes, nossas teias dos povos”, anuncia.

Como tarefa coloca aos povos de fé a tarefa de “tirar os parasitas atravessadores ou construir novos espaços”, aponta, sinalizando vias para saciar “as fomes” contemporâneas.

“Primavera para a vida

Esperança das mulheres  que vão para luta e não desistem
Prática pastoral do povo
Sagrado, comunhão, agroecologia
Vozes da profecia
Que ecoam as comunidades
As crises que já existiam
Primavera para a vida
Juntar forças
Para saciar fomes
E unir mãos
De proporcionar o encontro na mesa da igualdade
E colocar lá de novo
A sua fonte e o princípio da vida
A fonte que é vida de verdade!” (Joice Santana)

 

A LIVE COMPLETA ESTÁ DISPONÍVEL:

https://www.youtube.com/watch?v=W0MI5_DnYh0&t=672s