Nota Pública sobre a Pandemia do COVID-19 (Coronavírus)

20 de março de 2020

A Aliança de Batistas do Brasil vem a público neste momento em que atravessamos uma grave crise mundial, com contornos específicos e dramáticos em nosso País, para, primeiro, reconhecer e somar-se às vozes de igrejas-irmãs como a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), a Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB), dentre outras que também se pronunciaram clamando por prevenção e atenção às normas sanitárias e de isolamento, inclusive com o cancelamento de suas celebrações presenciais.

Nossas comunidades espalhadas pelo Brasil têm também tomado essas medidas, além de orientar aos seus membros a atenção às boas práticas preconizadas pelos organismos de saúde pública, sobretudo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), mas também por organizações públicas brasileiras com extenso serviço à sociedade, como a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), que em seu Portal de Boas Práticas recomenda como medidas eficazes para a prevenção do COVID-19:

– Lavar as mãos com água e sabão ou higienizador à base de álcool para matar vírus que possam estar nas mãos.

– Manter pelo menos 1 metro de distância de qualquer pessoa que esteja tossindo ou espirrando, já que quando alguém tosse ou espirra, pulveriza pequenas gotas líquidas do nariz ou da boca, que podem conter vírus.

– Evitar tocar nos olhos, nariz e boca, já que as mãos tocam muitas superfícies e podem ser infectadas por vírus, e uma vez contaminadas, podem transferir o vírus para os olhos, nariz ou boca, entrando no corpo da pessoa e deixando-a doente.

Para além das questões médicas e sanitárias, importantes e fundamentais, somos chamados como povo de fé a ir além e exercer virtudes como amor, paz, bondade, fé, mansidão e temperança (Cf. Gálatas 5:22). Isso certamente se desdobra em muitas reflexões e chamado à ação.

Como consequência do amor, como maior das virtudes, reconhecemos indignados que nem todas as brasileiras e brasileiros podem atender a essas simples recomendações, pois estão desprovidas de condições materiais básicas: milhões de trabalhadores informais não podem se isolar em suas casas pois dependem do seu trabalho diário para seu sustento; milhares de pessoas em situação de rua não tem como cuidar de sua higiene – e a esses se somam milhões de brasileiros que vivem em situação precária, em áreas periféricas esquecidas pelo poder público, a não ser, como observado por organizações e coletivos, irmãs e irmãos que atuam como profetizas e profetas nessas áreas, quando se trata do braço armado violento e repressor do Estado, em especial nesse momento de exercício livre e planejado de uma política de morte (necropolítica).

Nosso chamado, portanto, vai além do atendimento individual – ou ainda pior, individualista – de normas profiláticas. Que este seja um tempo de exercício de solidariedades! Assim, não basta fechar as portas nos dias de culto: é preciso pensar estratégias de cuidado para com as pessoas de nossa comunidade não alcançadas pelas políticas públicas. Não basta pedir isolamento: é preciso seguir denunciando a omissão do Poder Público em nível federal, estadual e municipal, e exigindo medidas urgentes, como a concessão imediata de todos os pedidos paralisados que atendam aos requisitos do Bolsa Família, sobretudo os da região Norte e Nordeste; ou a proibição de quaisquer demissões por um prazo mínimo de 90 dias, sem redução de salário, mas com redução de jornada, e, na medida do possível, em férias coletivas; ou ainda exigir a contratação imediata de profissionais de saúde que estejam aguardando a chamada em concursos por Prefeituras, Estados e Governo Federal.

Esses são só alguns exemplos de medidas que podem ser tomadas de forma imediata. Entendemos que a vida de cada pessoa importa, mas as vidas que estão em situação de vulnerabilidade exigem de nós posicionamentos firmes em sua defesa a fim de que o “amor cristão” não seja só uma frase bonita dita em sermões que não encontra concretude na realidade.

Conclamamos nossas comunidades e nossos irmãos e irmãs de fé de outras igrejas, religiões e espiritualidades para que nesse momento de distanciamento social e mudanças extremas de nossas rotinas cotidianas estejam em oração e vigilantes para que nossas respostas como sociedade e poder público estejam à altura da gravidade do momento, e que sejam antes de tudo promotoras de saúde, vida digna e justiça para todos os brasileiros e brasileiras, especialmente os mais vulneráveis.

Por fim, repudiamos como anticristãs todas as falas de lideranças religiosas que buscam constranger seus fiéis a participarem de cultos e reuniões, alegando falar em nome de Deus ou da Bíblia, colocando a vida destes em risco apenas para manter, em muitos casos, as rendas indecentes de seus “ofertórios” conseguidas através de manipulação e coerção psicológica (Mt. 7:15; Rm. 16:18; II Pe. 2:3).

Aliança de Batistas do Brasil, 20 de março de 2020.